Denúncia

Estudantes de nutrição se mobilizam contra a indústria de alimentos nas aulas

    Na última reunião da Comissão de Graduação (CG) da Faculdade de Saúde Pública da USP, foi aprovada uma carta escrita pelo Centro Acadêmico Emílio Ribas (CAER) e pelos Representantes Discentes, a qual denunciava a presença de representantes de indústrias de alimentos na sala de aula.

   A iniciativa surgiu após serem recebidas diversas reclamações de estudantes que se sentiam incomodados com as aulas ministradas pelos representantes das indústrias alimentícias, que utilizavam o espaço cedido pelos professores para promover a linha de produtos das empresas e distribuir brindes e presentes.

   A universidade tem papel fundamental na produção de conhecimento crítico e independente. A inserção da indústria de alimentos nas aulas pode ser prejudicial ao processo de formação d@ estudante e, portanto, é função da universidade garantir a criação e efetivação de mecanismos que regulem a publicidade e marketing de alimentos em sala de aula, permitindo que estudantes, funcionários e professores sintam-se à vontade para denunciar este tipo de conduta e tenham a garantia de que não serão punidos.

   O Centro Acadêmico conta com o apoio de docentes e profissionais da área que souberam da iniciativa e entraram em contato, como Ana Júlia Colameo, médica pedriatra e mestre em Saúde Coletiva,  professora Marina Ferreira Rea e Tereza Toma, membros da IBFAN, as quais deixaram os seguintes depoimentos:

 “Gostaria que encaminhasse as minhas congratulações pela postura ética que o Centro Acadêmico Emílio Ribas e os Representantes Discentes da Faculdade de Saúde Pública da USP adotaram, frente às aulas ministradas por representantes da indústria de alimentos e de nutrição, demonstrando amadurecimento e integridade”. 

Ana Júlia Colameo 

 “Estou orgulhosa de vocês. Até emocionada ao ler esta carta. Como talvez saiba, fui a coordenadora da elaboração da Norma Brasileira que controla o marketing de substitutos do leite materno e afins, e que conseguimos aprovar em 1988. Estudo e milito nesta causa há muito tempo e esta inserção da indústria dentro das escolas de saúde sempre foi algo muito dificil de coibir. Uma iniciativa como esta de vocês merece nosso apoio incondicional, assim como de todos os professores da USP que estão do lado do ensino isento de conflito de interesses. Oxalá outros alunos de outros cursos onde o assédio da indústria também existe façam o mesmo!  Conte com a gente.”

Prof. Marina Ferreira Rea

 “MARAVILHOSO!!!!! Uma boa lição para os professores.”

“Parabéns a vocês pela iniciativa. Este é um exemplo raro que merece ser divulgado. E fiquei feliz também pelo fato de vocês terem usado como uma das referências a publicação do Ministério da Saúde. Esta publicação foi uma conquista da Marina junto ao Comitê de Aleitamento Materno e nós membros da IBFAN Brasil tentamos colaborar no sentido de fazer algo que pudesse tocar os profissionais de saúde.”

Tereza Toma  

A fim de dar continuidade ao movimento, o CAER está organizando uma programação de seminários e intervenções visuais relacionadas a essa temática, durante os meses de abril e maio, na FSP/USP.

Link para a carta: oficioCG_publicidade_vfinal

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14 pensamentos sobre “Denúncia

  1. Quero parabenizar este Centro Acadêmico pela corajosa e brilhante iniciativa de defender um ensino livre de interesses comerciais. Acredito que a Nutrição, livre de interesses e limites, é a Ciência da Saúde que mais pode contribuir para uma sociedade menos doente. Que este movimento seja o primeiro de muitos pelo Brasil e que outras áreas se espelhem nesta vontade de ajudar a população.

  2. Parabéns ao corpo discente responsável por deflagrar esta importante ação! Como egressa da FSP/USP e nutricionista da UNIFESP Campus Baixada Santista, venho expressar minha admiração e apoio a este manifesto. Como alguns colegas já escreveram, esta atitude dos estudantes sinaliza maturidade, ética, visão crítica e grande capacidade de discernimento e de mobilização. Um belo exemplo de como o espaço acadêmico pode ser bem aproveitado pelos discentes para defender princípios éticos e humanísticos, que muitas vezes na sala de aula ficam enviesados por conflitos de interesses e posturas tecnicistas e capitalistas. Este exemplo revela que há perspectiva de um novo horizonte, repleto de desafios, mas com um nutricionista com muitas potencialidades para enfrentá-lo! Precisamos de profissionais que saibam falar mais de ALIMENTOS e de COMIDA, porque é o que faz sentido para as pessoas… e muito menos de produtos alimentíceos e suplementos mirabolantes…porque, destes temas, as indústrias já falam, ‘e muito bem’!
    Iniciativas como esta nos dão ainda mais motivação para trabalhar com a formação acadêmica do Nutricionista!
    Um grande abraço!
    Gabriela Milhassi Vedovato

  3. Apoio o MOVIMENTO!
    Há 21 anos atrás criamos a Feira Ecológica em Porto Alegre.
    Hoje a AGRICULTURA FAMILIAR tem escuta!
    A agricultura orgânica, a policultura, a fitoterapia são riquezas nacionais ocupando espaço nas mentes, nos corações, nos plantios e NAS MESAS.
    Hortinhas perenes, permaculturais, agroflorestais, canteiros, jardins produtivos recomeçam a brotar!
    Estamos redescobrindo e Brasil e deixando o BRAZIL!
    Tanta BIODIVERSIDADE é valor em si!
    Sucesso e CONS CIêNCIA coletiva!
    Claudia Lulkin
    Nutricionista ambientalista
    Educadora Popular
    (mãe e avó)

  4. Futuros colegas de profissão o que vocês estão mobilizando é algo inusitado, porém, do mais alto valor. É um movimento ímpar! Nunca em toda a história do curso de Nutrição houve um movimento tão revolucionário como o de impertrado por esse Centro Acadêmico. Na minha época, isso há 15 anos, não conseguia entender qual era o propósito de um CA além de promotor de festas e encheção de saco dos alunos novos. Um CA não passava de um palanque de uns metidos a besta querendo ser ativistas políticos. Balela, isso nunca convenceu ninguém. Mas ao ler na lista da IBFAN, outra instituição monitoradora da servegonhice da indústria alimentícia destruidora da saúde humana, a mobilização audaciosa de vocês eu voltei a acreditar que a Nutrição pode formar além de calculadores de fórmulas dietéticas industrializadas, pois eu confeso, é assim que me sentia até algum tempo atrás, um mero conhecedor dos cálculos de medidas. Também há um tempo não muito distante eu me orgulhava em exibir aos meus alunos de Enfermagem tantos e quantos produtos dos mais diversos tipos e para os mais diversos fins entre latas, sachês e embalagens. Orgulho que orgulho! Agora ele é de vocês e por vocês. Sabem o que é enfrentar o sistema seviciado da nutrição que parecia vagar como zumbi entre os ditames da insdústria alimentícia? No fim não incentivávamos a alimentação saudável em sua magnitude, pois sempre ouvia um e outro dizer que não saberia o que indicar a um paciente de ambulatório que não pudesse comprar alimentos industrializados. Isso é tão grave que com certeza todos já escutaram a triste justificativa de muitos para não ir a um nutricionista: “Eu não vou a um nutricionista porque não vou poder comprar o que eles vão me passar na dieta”. E realmente estão certos, pois muitos de nós nem mesmo sabem incentivar ao aleitamento materno, que é o alimento mais barato. Nos preocupamos tanto com os cálculos de fórmulas infantis e com as tabelas de alimentos que vão dos pacotinhos aos sanduíches de fast foods que sequer saímos da academia sabendo o que é polvilho. É triste a realidade do nutricionista que abandonou o natural para querer compreender apenas o mundo industrializado.
    Que essa manifestação seja maior que aparição de assombração e contagie mentes e mais mentes acadêmicas, mesmo as mais arraigadas. Assombrem bastante à indústria tenebrosa, o Bicho PApão dos papas infantis. Aqui, dali, de lá, daculá, de todo lugar vocês conquistaram uma multidão de admiradores e quiçá de continuadores desse PROJETO. Isso renderá outros frutos mais. Força nutricionistas, vamos realmente mostrar a que viemos nesse latifúndio.

  5. Como egressa da FSP-USP e professora de Nutrição da Universidade Federal de São paulo, venho parabenizar os alunos da FSP e membros do CAER por essa iniciativa.
    Eu estava nesse exato momento relendo um texto de um livro clássico da Nutrição, me preparando para a aula que darei amanhã, quando fui acometida por um grande desânimo com a nossa área. Como costumo fazer nesses momentos, fui ler um pouquinho do blog da Neide Rigo para me inspirar e encontrei essa grande iniciativa de vocês.
    Nesse texto do livro bíblia da Nutrição, a recomendação de produtos à base de soja é toda feita com base nas evidência do faz bem ou não: diminui os calores da menopausa ou não, reduz o colesterol ou não, etc. Não há nenhuma referência sobre o papel da soja no agronegócio, sobre os riscos para a diversidade ambiental que a soja transgênica, que comemos sem saber, pode trazer, etc… O mesmo texto vangloria qualquer produto industrializado que seja funcional ou “melhor para você”, sem qualquer questionamento sobre a indústria alimentar per se, sem nunca questionar se o que precisamos, enquanto cultura, é continuar produzindo objetos alimentícios não identificados ou se é voltar a comer comida.
    Certamente, isso tem origem na nossa formação; extremamente influenciada pela indústria e pelas suas lógicas positivistas, capitalistas e tecnicistas.
    Vocês, ao fazerem tal manifesto, dão um grande passo na mudança deste ritmo!
    Meus sinceros, emocionados e admirados parabéns,
    Fernanda Scagliusi.

  6. Parabenizo os alunos do CAER pelo discernimento, maturidade e determinação. Enquanto aluna da FSP-USP, eu e meus colegas ficamos estagnados no incômodo gerados por situações como essas, mas vocês foram além. Admiro a coragem que tiveram em denunciar, protestar e exigir posturas éticas no espaço acadêmico por parte dos docentes. Esses são os responsáveis pela garantia da isenção das informações repassadas em sala de aula. Vou divulgar esse documento no mural do CA de Nutrição daqui como um exemplo a ser seguido pelos nossos alunos.
    Profa. Nutrição da Criança e do Adolescente – ENUT/UFOP

  7. Também faço parte de um movimento contra o marketing não ético das industrias de alimentos infantis e fiquei orgulhosa com a ação promovida por vocês. Esta iniciativa é para ser divulgada, copiada e incentivada! Quem dera outros Centros Acadêmicos seguissem esse exemplo. Vocês serão os profissionais de amanhã e estão mostrando a que vieram! PARABÉNS!
    Jeanine Salve, Nutricionista, Membro da IBFAN Brasil

  8. Inédita, corajosa e promissora, esta carta mostra que as industrias de alimentos não podem se sobrepor aos profissionais sem sua permissão. Vocês são a geração das pessoas que não serão compradas por viagens, turismo, congressos em navios como tantas. São profissionais diferenciados que com certeza se preocupam com a saúde e qualidade de vida de quem atende. Fico até arrepiada em saber que tamanha ação aconteça e vá adiante de forma a conscientizar outros profissionais e instituições de ensino.
    Cirlei – Psicóloga, Membro da IBFAN BRASIL, Conselheira em Aleitamento Materno

  9. Lá na década de 80, logo que comecei estudar Nutrição, fiz um trabalho sobre hábitos alimentares e estudei a influência da propaganda de alimentos na formação desses hábitos em crianças e suas famílias. Fiquei impressionada porque já havia dados consistentes sobre o quanto a propaganda de indústria de alimentos influenciava as escolhas das criança por alimentos pouco saudáveis.
    Durante o curso, eu achava desconfortável a maneira como as indústrias de alimentos eram presentes e influentes, como os professores eram-lhes gratos e pouco críticos. Ainda assim, segui a onda e, quando participei da coordenação do, então, Grêmio Emílio Ribas, organizamos um seminário e pedimos patrocínio a várias indústrias de alimentos que eram, praticamente,”da casa”. Trabalhamos muito, conseguimos o patrocínio e o evento foi um sucesso. De fato, o evento teria sido mesmo um sucesso, não sabíamos como fazê-lo sem aquele patrocínio, mas nunca havíamos pensado nisso…
    Naquele ano, minha turma teve um curso muito esclarecedor em que se abordou o “desmame comerciogênico”, sobre como as indústrias de alimentos e mamadeiras haviam provocado uma mudança de padrão alimentar fundamental, e como se criou uma cultura de uso de mamadeiras em detrimento da amamentação. Fiquei muito incomodada com a descrição de estratégias que incluiam profissionais de saúde como divulgadores de seus produtos. Sem perceber, passivamente, profissionais de saúde foram incluídos numa trama envolvente que teve consequências desastrosas para a saúde de gerações. Naquele tempo, tinha fórmula infantil promovida como “maternizada”, um termo tão absurdo que depois vi anotado em meu caderno de Dietética, haviam me “ensinado/repassado/despejado” aquilo na USP!!!
    Foi lamentável saber que era assim em todo mundo, em cada Faculdade, hospital, consultório acontecia o mesmo, o material da indústria era divulgado constantemente… e as indústrias farmacêuticas também faziam isso nas Faculdades de Medicina, depois, multinacionais de mamadeiras e bicos entravam com a mesma força e simpatia em Faculdades de Fonoaudiologia…
    Foi quando vi que nós temos uma responsabilidade muito grande como profissionais para saber de onde vem o conhecimento, tentar sempre – e é uma busca e luta constantes – discernir o que é ciência o que não é, o que é ético, o que queremos ser.
    Muita coisa aconteceu nestes anos, muitos avanços, mas, certamente, muito milhões têm sido investidos em gerações de profissionais para que incorporem produtos e atitudes como bons, ótimos, saudáveis, nutritivos, normais, quando não são.
    Fico aliviada ao ver que este Centro Acadêmico teve discernimento para assumir uma posição crítica, importante, corajosa… é animador pensar que outros profissionais terão essa clareza e continuarão atentos.
    Parabéns e um grande abraço!

    Silvia de Castro Arruda

  10. Parabéns a toda a classe! Sugiro que divulguem o manifesto ao maior número possível de instituições para que este seja um movimento conjunto e com maior força!

  11. Prezados colegas,
    O Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição, da Universidade de Brasília – OPSAN/UnB, vem parabenizar e apoiar a mobilização, considerando essa ação de fundamental importância para uma formação adequada e realmente isenta de influências que trazem interesses contrários à saúde da população!
    Parabéns aos discentes! Esperamos que essa manifestação abra novas reflexões em outros discentes e docentes de todo o país, e também de outros cursos que vivem esse conflito.
    Divulgaremos a mobilização e nos colocamos à disposição!
    Abraços cordiais,
    Equipe OPSAN/UnB
    http://www.unb.br/fs/opsan
    opsan@unb.br
    (+5561) 3307-2508

  12. O DCE Livre da USP parabeniza os diretores do CAER, os RDs e todos os estudantes da Nutrição pelo exemplo de luta pela defesa da Universidade Pública e pela independência da produção do conhecimento.
    Estamos juntos!

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